Por trás de muitas histórias de suspense, há algo que não se vê, mas se sente. Rituais, símbolos, crenças antigas e gestos repetidos ao longo de séculos povoam romances policiais, thrillers conspiratórios e narrativas de horror psicológico. Esses elementos não apenas dão cor e textura ao enredo: eles moldam a atmosfera, influenciam o comportamento das personagens e amplificam o impacto emocional do leitor.
Símbolos falam com aquilo que existe antes das palavras. Por isso, quando surgem no suspense, exercem poder imediato: despertam memórias, medos, culpas, expectativas. Um ritual pode transformar um simples crime em algo maior, quase mítico. Um símbolo pode ligar passado e presente, revelando que nada ali aconteceu por acaso. E isso, para quem lê, é gasolina pura.
Por que rituais inquietam tanto?
Rituais são, por definição, ações repetidas com valor simbólico. Podem ser religiosos, culturais, pessoais. Mas no suspense, eles carregam um duplo poder:
Criam ordem, como se o criminoso estivesse impondo um padrão ou lógica.
Revelam perturbação mental, quando a repetição passa a ser uma forma de controle obsessivo.
É por isso que assassinos rituais são tão marcantes na ficção: não matam apenas, encenam.
Em Seven, os crimes inspirados nos sete pecados capitais transformam cada assassinato em uma performance sombria, carregada de moral distorcida e punição divina. Já em True Detective (temporada 1), os símbolos “espirais”, totens e referências ao Rei Amarelo criam um imaginário que mistura culto, fanatismo e podridão social. Uma mitologia inteira sustentada por pequenos sinais espalhados ao longo da trama.
O ritual oferece o que todo suspense busca: um padrão enigmático que o leitor quer desesperadamente decifrar.
O símbolo como mapa emocional da história
Se o ritual é ação, o símbolo é presença. É aquilo que aparece silenciosamente, mas causa impacto imediato. Uma cruz entortada. Uma vela apagada. Um desenho infantil. Um objeto fora do lugar.
Em O Código Da Vinci, cada símbolo funciona como enigma e também como quebra de expectativa, invertendo significados religiosos, provocando tensão entre fé e ciência. Em Hereditário, símbolos aparentemente inofensivos, como miniaturas e inscrições, constroem lentamente um terror psicológico devastador.
No suspense, símbolos são mais do que pistas. Eles são chamados. Evocam algo escondido no passado do personagem ou na história da própria cidade onde a trama se desenrola.
E muitas vezes, o que o símbolo revela é exatamente aquilo que o protagonista vinha tentando evitar.
O sagrado e o profano nas histórias policiais
Há algo particularmente perturbador quando o crime se mistura com o sagrado. Igrejas, sinagogas, templos e cemitérios possuem um peso simbólico que atravessa culturas. E quando a ficção leva violência para esses lugares, o leitor sente um abalo profundo, como se algo proibido estivesse acontecendo diante de seus olhos.
Esse conflito entre o sagrado e o profano cria histórias inesquecíveis, como em O Nome da Rosa, onde símbolos religiosos apontam para um labirinto intelectual e também para crimes motivados por poder, medo e fanatismo.
A violência ritual não assusta apenas pelo ato em si, mas pelo que diz sobre a alma humana quando se aproxima do divino.
O papel dos símbolos em “A Relíquia de Judas”
No meu livro A Relíquia de Judas, essa força simbólica aparece de forma clara:
os ritos distorcidos,
o uso profano de símbolos religiosos,
uma seita que reinterpreta dogmas com ódio e vingança,
Uma seita milenar se apodera de textos apócrifos antigos para subverter dogmas e crenças religiosas tradicionais.
A simbologia encontrada pelo caminho do delegado Alex, da professora Talita e do agente Sebastián vai aos poucos moldando a verdadeira natureza dos vilões da trama.
Procurei costurar uma mistura de rituais e símbolos reais e ficcionais por toda a história, desde a capa do livro, para construir um clima crescente de mistério e tensão.
Por que gostamos tanto dessa mistura?
Porque rituais e símbolos lidam com algo essencial: a busca humana por sentido. No suspense, essa busca se distorce.
O ritual vira controle.
O símbolo vira ameaça.
A crença vira obsessão.
E nós, como leitores, embarcamos justamente para ver até onde isso vai.
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