Há um paradoxo curioso no hábito de quem consome suspense, thriller, policial ou terror: quanto mais a história fala de violência, crime, medo e morte, mais ela parece oferecer conforto. Em um mundo que já assusta por si só, por que escolhemos voluntariamente mergulhar em narrativas sombrias?
A resposta pode estar na forma como essas histórias organizam o caos, dão forma ao medo e oferecem ao leitor algo que a vida real raramente concede: controle.
O medo que escolhemos enfrentar
O suspense funciona como um medo controlado. Diferente da violência real que é imprevisível, arbitrária e sem fechamento, a violência ficcional acontece dentro de limites claros. Existe um começo, um desenvolvimento e, quase sempre, algum tipo de resolução, mesmo que incômoda.
Quando lemos O Silêncio dos Inocentes, assistimos a Seven ou acompanhamos uma temporada de True Detective, sabemos que estamos em terreno perigoso, mas delimitado. Podemos fechar o livro, pausar o episódio, respirar. Esse simples poder de escolha transforma o medo em experiência administrável.
Não é à toa que, em períodos de instabilidade social, crises políticas ou insegurança cotidiana, histórias sombrias tendem a ganhar ainda mais público. Elas oferecem algo raro: a sensação de que o horror pode ser compreendido, analisado e, em alguma medida, enfrentado.
O caos organizado da narrativa
Na vida real, crimes muitas vezes não fazem sentido. Não seguem lógica, não respeitam justiça poética, não oferecem respostas. Já na ficção, mesmo o absurdo costuma obedecer a uma estrutura.
Em romances policiais clássicos, de Agatha Christie a Arthur Conan Doyle, o crime é um enigma. Em thrillers psicológicos modernos, como Garota Exemplar ou Dele e Dela, o mistério está menos em “quem fez” e mais em “quem está mentindo”. Ainda assim, existe uma arquitetura narrativa que conduz o leitor.
Essa organização do caos é profundamente reconfortante. O suspense nos diz, de forma implícita: o mundo pode ser cruel, mas aqui há lógica; aqui, pistas levam a consequências. Mesmo quando o final não é o mais esperado (como nos meus livros Agenda Negra e A Relíquia de Judas), ele costuma ser coerente.
Identificação com o perigo, mas à distância
Outro aspecto central do conforto nas histórias sombrias é a identificação segura. Nos conectamos com investigadores, vítimas, testemunhas e até vilões, sem arcar com o preço real dessas escolhas.
Personagens como Lisbeth Salander (Millennium), Rust Cohle (True Detective) ou mesmo narradores ambíguos como os de Clube da Luta permitem que o leitor explore impulsos, traumas e pensamentos extremos sem cruzar a linha na vida real. É uma espécie de laboratório emocional.
Ao acompanhar essas figuras, testamos limites morais, refletimos sobre culpa, justiça, vingança e redenção. Tudo isso a uma distância segura o suficiente para aprender sem se ferir.
O vilão como ordem distorcida
Curiosamente, até o vilão contribui para esse conforto paradoxal. Assassinos rituais, mentes manipuladoras e antagonistas meticulosos costumam seguir regras próprias. Por mais perturbadoras que sejam, essas regras criam uma sensação de previsibilidade.
John Kramer (Jogos Mortais), Hannibal Lecter ou os assassinos simbólicos de thrillers contemporâneos não agem ao acaso. Eles obedecem a uma lógica interna, moralmente perversa, mas consistente. Para o leitor, isso é estranhamente tranquilizador: o mal tem método, padrão, assinatura.
O caos absoluto assusta mais do que o mal organizado. E a ficção sabe disso.
O lar como território do medo
Nos últimos anos, muitos dos thrillers literários mais populares, como Nunca Minta ou Com Amor, Mamãe, deslocaram o suspense para dentro de casa. Casamentos, relações familiares e ambientes domésticos tornaram-se campos minados.
Esse tipo de narrativa funciona porque toca em algo íntimo: o medo de que o perigo venha de onde deveria haver proteção. Ainda assim, há conforto na exposição desse temor. Ao ler, o leitor nomeia uma ansiedade difusa, dá forma ao medo do cotidiano.
Quando o medo é nomeado, ele perde parte do poder.
Ler o mal para sobreviver a ele
Há uma função quase ancestral nas histórias sombrias. Desde mitos antigos até o suspense moderno, narrativas sobre o mal servem como alerta, aprendizado e preparação. Elas ensinam a reconhecer sinais, padrões, mentiras e armadilhas.
Ler sobre crimes, manipulação e violência não nos torna mais cínicos, apenas mais atentos. O suspense, nesse sentido, não glorifica o mal: ele o expõe.
Em A Relíquia de Judas, por exemplo, símbolos religiosos e rituais são usados para revelar não apenas a maldade de uma seita milenar, mas as falhas humanas que permitem que essa maldade se instale. Em Agenda Negra, a história não conforta por ser leve, mas por mostrar que até o mal mais elaborado deixa rastros.
O conforto que não anestesia
Ao organizar o medo, a ficção cria espaço para reflexão, empatia e compreensão.
Talvez seja por isso que continuamos voltando a essas histórias. Não porque gostamos do horror, mas porque gostamos da sensação de atravessá-lo e sair do outro lado com algo em mãos: entendimento.
No fim, o suspense não é um refúgio contra o medo. É um treino para lidar com ele.
Minha leitura como autor do gênero
Em A Relíquia de Judas, trabalhei exatamente nessa fronteira que 2025 celebrou: símbolos que contam história, religião como palco do profano, crime como liturgia distorcida e investigação como leitura de sinais. O sucesso das obras do ano confirma: o leitor moderno não quer apenas o mistério. Ele quer o mito por trás dele, o eco simbólico que o crime deixa no mundo.
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