O ano de 2025 consolidou algo que já vínhamos sentindo no pulso: o público quer suspense que provoque, que desestabilize e que deixe marcas psicológicas duradouras. Nos gêneros policial, suspense, thriller e terror, os territórios que eu, como autor, exploro tanto na ficção quanto na interseção com crimes reais, vimos histórias que não apenas entretiveram, mas dialogaram com as inquietações do presente.
Mais do que listar sucessos, vale entender o que fez essas obras atravessarem o ruído e conquistarem tanta atenção.
Filmes: símbolos antigos, monstros eternos e mistério inteligente
Quatro filmes marcaram o ano com abordagens distintas, mas convergentes em um ponto: mito e mistério como força narrativa.
Pecadores trouxe o horror moral como centro do medo: não é apenas o mal que se manifesta, é a culpa que o precede. Em tempos de polarização, a audiência se conectou com histórias onde o terror nasce das escolhas humanas e de suas contradições.

Frankenstein voltou às telas em 2025 provando que monstros nunca envelhecem quando são espelhos. O público não se assusta apenas com a criatura, mas com a pergunta que ela encarna: quem é o verdadeiro monstro, o criado ou o criador? A obra triunfa porque a resposta nunca é simples.

Nosferatu reafirmou o fascínio pelo gótico, pelo arcaico e pelo simbólico. O vampiro aqui não é só ameaça física: é arquétipo, é peste social, é metáfora para tudo que suga sem ser notado. Num mundo saturado de informação, o que mais nos assombra é o que se esconde na penumbra e Nosferatu entende isso como poucos.

E no terreno do mistério moderno, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out entregou o prazer do enigma com personagens espirituosos e investigação cerebral. A popularidade desse tipo de trama revela um desejo de participar do mistério, e não apenas consumi-lo passivamente. É o retorno do “whodunit” sofisticado, mas com linguagem contemporânea.

Séries: juventude em risco, nostalgia e universos que nos pertencem
Se o cinema apostou no mítico, as séries de 2025 trabalharam a tensão pelo lado do tempo, da juventude e da familiaridade afetiva.
Adolescência mergulhou na violência vista pelos olhos da geração que cresce online, com identidades fluidas, pressões invisíveis e traumas em formação. Foi sucesso porque traduz um medo real: o de não percebermos a tempo quando alguém está se quebrando por dentro.

Bem-vindos a Derry resgatou o horror que nasce do coletivo, do folclórico, do ritual comunitário. Mais do que o susto, a série fez sucesso pela mitologia expandida, o público ama quando uma história cria raízes e ecos, como se fizesse parte de um passado compartilhado.

Stranger Things seguiu como fenômeno em 2025 apoiado em três pilares: nostalgia, amizade e mistério. Não é sobre monstros do outro lado, é sobre laços deste lado. Assistimos porque reconhecemos quem fomos e tememos o que poderia ter nos encontrado se a realidade tivesse sido mais sombria.

E Os Donos do Jogo, da Netflix, ocupou o topo do policial brasileiro em streaming, combinando crime, poder e ambição. O público se engaja porque vê nesses enredos uma espécie de verdade nua: o jogo do crime é muitas vezes o jogo do poder, apenas sem câmeras ao redor.

Livros: reviravoltas, segredos íntimos e narradores emocionais
Na literatura, 2025 foi o ano do plot twist emocionalmente inteligente e dos segredos domésticos que se transformam em bombas narrativas.
Dele e Dela, de Alice Feeney, mostrou que o público segue fascinado por versões conflitantes da verdade. Dois lados, um crime, e a dúvida no centro.

Nunca Minta, de Freida McFadden, surfou na paranoia moderna: câmeras, vigilância, segredos conjugais e manipulação psicológica. Sucesso porque vivemos na era do medo do que o outro esconde no próprio celular.

Imagens Estranhas, de Uketsu, trouxe o terror documental para o mainstream literário. Fotografias, registros, sinais visuais como gatilhos de medo. A obra triunfa porque o símbolo visual tem impacto mais rápido que a palavra, especialmente na geração que consome imagem antes de texto.

E Com Amor, Mamãe, de Iliana Xander, mostrou a força do terror afetivo: quando a ameaça usa a linguagem do cuidado, do lar, da maternidade, o medo fica pessoal demais para ser ignorado.

Freida McFadden e Iliana Xander dominaram listas e leituras digitais porque entenderam que o terror e o suspense hoje funcionam melhor quando entram na nossa sala sem arrombar a porta.
O que conecta esses sucessos?
Três vetores explicam grande parte desse domínio em 2025:
1. O mal com propósito
Vilões rituais, mitos profanados, símbolos religiosos e monstros clássicos voltaram fortes porque o público cansou do mal genérico. O mal que assusta em 2025 tem motivo, crença, obsessão e assinatura.
2. Verdade fragmentada
Histórias que trabalham versões contraditórias, narradores ambíguos, memórias falhas ou evidências manipuladas (como em Dele e Dela e Nunca Minta) fazem sucesso porque vivemos um tempo em que a própria realidade parece não ter um narrador confiável.
3. Emoção como lente do mistério
O suspense que mais repercutiu não é só cerebral é afetivo. O medo que nasce do lar, da culpa, da juventude ou da amizade (Adolescência, Pecadores, Com Amor, Mamãe) conecta porque nos lembra que o perigo mais eficiente é aquele que nos conhece pelo nome.
Minha leitura como autor do gênero
Em A Relíquia de Judas, trabalhei exatamente nessa fronteira que 2025 celebrou: símbolos que contam história, religião como palco do profano, crime como liturgia distorcida e investigação como leitura de sinais. O sucesso das obras do ano confirma: o leitor moderno não quer apenas o mistério. Ele quer o mito por trás dele, o eco simbólico que o crime deixa no mundo.
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